Olinda e Recife são duas cidades que compartilham cultura, belas paisagens e importantes contribuições para a história de Pernambuco. Conhecidas como “cidades-irmãs”, ambas fazem aniversário no dia 12 de março. Em 2025, a Marim dos Caetés completa 490 anos, enquanto a capital pernambucana faz 488 anos. A extensa história dos municípios vizinhos tem início no século XVI, no período colonial, e inclui conflitos como a Guerra dos Mascates, ocorrida em 1710.
Mesmo aniversário
O Foral de Olinda é o motivo que levou Olinda e Recife a fazerem aniversário no mesmo dia. Trata-se de uma declaração oficial do donatário Duarte Coelho oficializando a doação de grande parte das terras litorâneas à Câmara da cidade, que passou a ser responsável por gerir a capitania de Pernambuco. O documento, publicado em 12 de março de 1537, é o primeiro registro histórico das terras onde as cidades-irmãs começaram a se formar.
O foral era um documento comum na era colonial, e concedia a alguém a posse de algum terreno. O Foral de Pernambuco, por exemplo, foi concedido pelo rei de Portugal, em 1535, tornando Duarte Coelho donatário das terras da Capitania. Na época, as terras de Olinda se estendiam pelo litoral até o rio Sirinhaém, localizado próximo ao atual município de Ipojuca. O documento serviu de base para a criação do Foro de Olinda, documento que possui validade jurídica até a atualidade. Como Olinda tornou-se proprietária oficial das terras, os moradores de locais que deixaram de fazer parte de Olinda precisam pagar uma taxa ao município.
O Foral de Olinda é um exemplo único, pois transferiu a gestão da vila a um órgão governamental, e não a um indivíduo. Devido ao pioneirismo, a carta foi considerada pela Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura), em 2008, como um documento de “Memória do Mundo”, de valor excepcional e que deve ser protegido para benefício da humanidade.
Em 1966, uma comissão de historiadores convocada pelo então prefeito do Recife, Augusto Lucena, estabeleceu o documento como o marco responsável por definir a data de fundação da cidade. No documento, consta que Olinda já existia desde 1535, sendo fundada logo após a chegada do capitão português Duarte Coelho em Pernambuco. Por esse motivo, as cidades possuem dois anos de diferença entre suas fundações.
Olinda como centro político
Nas primeiras décadas do período colonial, o Recife era apenas um porto de Olinda, sendo elevado oficialmente à condição de vila apenas no século XVIII. A sede governamental da região era Olinda, centro político e econômico de Pernambuco. O cenário mudou drasticamente após o início da ocupação holandesa. Em 1630, os holandeses invadiram e abandonaram Olinda, se estabelecendo nas ilhas portuárias que hoje compõem a área central do Recife.
Mudança no cenário
Em 1631, os holandeses incendiaram Olinda, após saquear e retirar os materiais nobres das edificações para construir suas casas no Recife. A então cidade portuária passou a prosperar com reformas urbanísticas e investimentos realizados pelos holandeses. Assim, Recife tornou-se o centro político e econômico de Pernambuco. Quando os holandeses foram expulsos, em 1654, a lenta reconstrução da Vila de Olinda teve início, mas Recife permaneceu como a principal cidade, ganhando, inclusive, uma Câmara própria.
Porém, a corte de Portugal não retirou oficialmente a sede governamental oficial de Olinda, mesmo após diversas tentativas da Câmara recifense. Sendo assim, Olinda permaneceu como proprietária das terras. Historiadores afirmam que essa recusa foi uma espécie de prêmio de consolação por Olinda ter sido desmembrada, mantendo uma fonte de renda oriunda do foro.
Conflito entre as cidades
As tentativas frustradas da Câmara do Recife de tornar-se sede governamental acirrou os atritos existentes entre comerciantes e políticos das duas cidades, que não concordavam com a existência de duas Câmaras. O episódio que marcou o ápice da tensão entre os municípios foi a Guerra dos Mascates, que durou entre 1710 e 1711, conflito armado no qual a elite de ambos os lugares disputaram a hegemonia política de Pernambuco. A relação só começou a ser pacificada na época do Brasil Império, quando o Recife se tornou cidade e, depois, capital da província pernambucana, em 1827. Desde então, as cidades convivem de forma pacífica, compartilhando até mesmo o aniversário de fundação.