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Equilíbrio entre a parte física e mental é fundamental para atletas

A desistência da ginasta americana Simone Biles nas Olimpíadas de Tóquio chamou atenção para a saúde mental dos atletas

às 21h34
A desistência da ginasta americana Simone Biles nas Olimpíadas de Tóquio levanta a questão da saúde mental dos atletas (Instagram/@simonebiles)
A desistência da ginasta americana Simone Biles nas Olimpíadas de Tóquio levanta a questão da saúde mental dos atletas (Instagram/@simonebiles)
O professor Cleberson Costa, do curso de Psicologia da Unit Sergipe
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A saúde mental de atletas e esportistas nunca foi tão discutida quanto agora, após a desistência da ginasta americana Simone Biles de disputar as provas individuais e coletivas nas Olimpíadas 2020, realizadas em Tóquio, Japão. Considerada a melhor do mundo e vencedora de quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas 2016, no Rio de Janeiro, ela preferiu não competir nas finais por que não se sentia bem psicologicamente. “Não vejo problema em desistir de grandes competições para focar em você, porque mostra força como competidora e como pessoa”, disse ela, em entrevista coletiva. Na manhã de segunda-feira, 2, ela confirmou presença na prova final de trave.

A busca pela perfeição, a cobrança pelo melhor desempenho e performance, assim como a insegurança, o medo pelo risco de lesões e, principalmente, das derrotas, são pressões psicológicas que provocam estresse e transtornos como a ansiedade e a depressão. A expectativa das pessoas e deles próprios sobre seus desempenhos podem influenciar negativa ou positivamente em sua performance.

O professor Cleberson Costa, especialista em Psicologia do Esporte e titular do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit Sergipe), explica que o cuidado com a saúde mental é imprescindível. “Desde o início da prática esportiva, o atleta se coloca numa condição de auto-cobrança, cobrança por parte da equipe técnica, por parte da família, mais a frente por parte de torcida e investidores (patrocinadores). E, com o passar do tempo, a carreira do atleta vai encontrando cada vez mais desafios, quase que num percurso infinito de superação de feitos. Se o atleta não for preparado desde a sua iniciação esportiva, essa busca pode agravar a saúde mental”, observa ele.

Para alcançar uma melhor performance, é importante que o esportista seja auxiliado por uma equipe multidisciplinar, composta por técnico, preparador físico, fisioterapeuta, nutricionista e psicólogo, de modo que corpo e mente estejam em sintonia. O equilíbrio emocional na hora de disputar provas é fundamental, mas o atleta é um ser humano e com uma exposição social elevada e, por isso, precisa cuidar da saúde mental com o acompanhamento psicológico profissional. 

Antes de Tóquio, e por conta da retomada das atividades desportistas após o período mais crítico da pandemia de covid-19, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), elaborou o documento “Como promover e prevenir a Saúde Mental dos Atletas”, com orientações relativas ao processo de retorno aos treinos tanto dos atletas quanto dos preparadores e treinadores, considerando as individualidades e suas peculiaridades físicas e psicológicas. 

Antes de Biles, o mesmo aconteceu a outros grandes nomes do esporte, como a tenista japonesa Naomi Osaka, que desistiu do torneio em Roland Garros, na França, por sofrer transtorno de ansiedade e depressão. O nadador australiano Michael Phelps assumiu já ter tido depressão e problemas com álcool. Outro nadador, medalhista de ouro em Pequim, o brasileiro César Cielo também admitiu quase ter desistido de realizar a prova em 2008. 

Nem deuses, nem máquinas

O professor Cleberson salienta que o modo como a sociedade percebe os atletas, desde os primórdios das práticas esportivas, pode ter cultivado uma incompreensão deles enquanto seres humanos. “Sempre foram vistos como um ser intacto, um semi-deus, conforme o concebido na Grécia Antiga. Acredita-se, quase que de forma mística, que o atleta é uma pessoa sólida, com poucas oscilações e com um inabaláveis aptidões física e mental, o que não é verdade”, afirma. 

O caso da ginasta americana contribuiu para que o mundo esportivo fizesse uma análise sobre os atletas enquanto indivíduos com sentimentos e emoções, e não como máquinas competidoras, que precisam do acompanhamento de um profissional da área de psicologia para que corpo e mente trabalhem em sincronia. “As cobranças que seguiram-na na carreira, especialmente no último ciclo olímpico, a desgastaram ao ponto de colocá-la em situação de desistência e optando pela sua saúde mental”, finaliza ele.

Asscom | Grupo Tiradentes

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