Nos últimos anos, um termo curioso ganhou espaço na internet: brain rot, que, em tradução livre, significa “cérebro apodrecido”. A expressão, muitas vezes usada de forma bem-humorada, descreve a sensação de mente cansada, dificuldade de concentração e pensamento superficial após longos períodos consumindo conteúdos rápidos e repetitivos na internet.
O fenômeno por trás do termo gera preocupações para educadores, psicólogos e famílias, já que o aumento do tempo de tela entre crianças e adolescentes tem provocado debates importantes sobre saúde mental, aprendizagem e desenvolvimento. Embora não seja um diagnóstico clínico, o termo descreve outros sintomas que vêm sendo observados com frequência: impaciência com tarefas mais longas, sensação constante de tédio, ansiedade quando longe do celular e queda no rendimento escolar.
A Profª M.a. Giedra Marinho, do curso de Psicologia, explica que, em pessoas que passam muitas horas diante das telas, existe toda uma disfunção de neurotransmissores – substâncias responsáveis por controlar nossas emoções (dopamina, serotonina, gaba, adrenalina, noradrenalina, cortisol, etc.). “Isso faz com que as pessoas fiquem com as pupilas dilatadas, rigidez muscular, inquietação física, impedindo também o sono de qualidade, com interrupções no sono. O que acaba promovendo irritação e baixa probabilidade de um bom desempenho no processo de aprendizagem”, afirma.
Segundo Giedra, o impacto é amplo, atingindo crianças, adolescentes, adultos e até idosos. Desde bebês que são colocados em telas até adultos. “É uma condição de alarme mundial”, reforça. “Tem gente que não consegue perceber os malefícios de deixar uma pessoa tanto tempo diante da tela. Tem pessoas que só adormecem depois que mexem no celular e a primeira coisa que fazem ao acordar é pegar o celular”, complementa.
O mecanismo do vício e a dopamina barata
Um dos pontos mais preocupantes, segundo a especialista, é justamente essa relação entre o brain rot e o mecanismo do vício. “Existe uma substância chamada dopamina, que está ligada ao prazer. Toda vez que fazemos algo prazeroso, o cérebro é inundado por dopamina e queremos mais e mais. O problema é que o consumo digital constante gera uma recompensa rápida e fácil, sendo consolidada como dopamina barata. Trata-se de um vício que não traz benefícios reais”, explica.
Muitas crianças passam horas alternando entre vídeos curtos, jogos, redes sociais e mensagens instantâneas. Esse consumo acelerado estimula recompensas imediatas (curtidas, notificações, novos vídeos) e pode dificultar atividades que exigem foco prolongado, como leitura, resolução de problemas e até conversas presenciais. “A consequência pode ser semelhante à abstinência química. Por exemplo, se você tira o celular de uma criança ou adolescente, ela pode apresentar manifestações típicas de abstinência: extrema irritabilidade, agressividade. Às vezes chegam a agredir pais e cuidadores”, detalha.
E o que fazer?
Embora o problema já esteja instalado, ela reforça que a situação é prevenível e manejável. “Os neurocientistas vêm debatendo fortemente essa questão desde 2024. O foco agora é: o que fazer? Como lidar com isso?”
O problema não está necessariamente na tecnologia em si, mas no uso excessivo e sem mediação. A proposta é promover um uso consciente e equilibrado. Dessa forma, algumas orientações mais discutidas por especialistas são estabelecer limites claros de tempo de tela; evitar o uso de dispositivos antes de dormir; não introduzir telas na primeira infância; incentivar atividades físicas e interações presenciais; e acompanhar de perto o conteúdo consumido.