Mesmo com uma maior atenção dada ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) nos últimos anos, ainda existem alguns aspectos relacionados à condição que não são tão conhecidos assim. É o caso das crises sensoriais, que acontecem quando existe uma carga muito grande de estímulos no ambiente. Apesar de não ser exclusividade de quem está no espectro, essas crises são mais comuns nesses pacientes. Além disso, a maneira como ocorrem as crises também varia de acordo com cada caso, havendo inclusive pessoas com TEA que não apresentam essas crises.
O Brasil tem cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com o TEA, segundo o censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por se tratar de um espectro, os pacientes com a condição podem estar em diferentes níveis. Assim, a intensidade, a frequência e os gatilhos das crises sensoriais variam bastante. De maneira geral, no entanto, elas podem ser ocasionadas por luzes ou cheiros fortes, barulhos altos, toques ou até mesmo por roupas desconfortáveis.
“Uma crise sensorial em alguém com TEA significa que o paciente está tendo uma sobrecarga de informações sensoriais muito grande, principalmente no lobo parietal do cérebro. Essas crises podem ser causadas por sobrecargas, como um shopping muito lotado, com gente falando, cheiros muito fortes, um toque apertado”, explica a Profª M.a. Giedra Marinho, docente do curso de Psicologia do Centro Universitário Tiradentes – UNIT. O lobo parietal é uma parte do cérebro responsável pela percepção dos sentidos.
O que caracteriza uma crise?
A professora, que é analista comportamental, ressalta que essas crises podem acontecer em pacientes de qualquer idade, crianças, adolescentes e também adultos. Além disso, ela aponta duas formas das crises se apresentarem: “meltdown” (que pode ser traduzida como “colapso”) e “shutdown” (que significa “desligamento”). “O ‘meltdown’ é uma crise externa, em que o paciente grita, chora, descompensa. E o ‘shutdown’ é uma crise que é mais interna, que é como um apagão, a pessoa está tão sobrecarregada que fica parada, perdida, sem querer se movimentar”, detalha Giedra.
Durante as crises, também é comum que as pessoas com TEA apresentem alguns comportamentos, conhecidos como estereotipias, que servem para a autorregulação emocional e sensorial. É algo semelhante ao hábito, em pessoas neurotípicas, de roer as unhas ou balançar as pernas em momentos de nervosismo, mas quem tem o espectro autista costuma ter um menor controle em relação a esses comportamentos. Alguns deles são: balançar o corpo ou as mãos, bater os pés, fazer sons, correr e andar nas pontas dos pés.
Lidando com a crise
Em momentos de crise, conhecer os comportamentos e os gatilhos do paciente com TEA é fundamental para manejar a situação, segundo Giedra. Existem várias formas de regulá-los, mas vai depender das preferências de cada, por isso a importância de conhecer bem. A partir daí, a chave é tentar transmitir calma e tranquilidade. “O primeiro passo é retirar essa pessoa desse ambiente que está com muita estimulação e dizer ‘está tudo bem, estou aqui com você’. Sempre manter um tom de voz baixo e tranquilo, não gritar. Não toque e nem abrace, fale de longe, porque às vezes você não sabe se eles querem ou não”, aconselha.